segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Levei meu cérebro a passear

Levei meu cérebro a passear
na orla do mar, pela vaga noite.
Ouro, ar, mar, cesto de ostras e estrelas.
Um cão ao lado brincava num sonho,
com as mãos do mar e da lua nos pelos,
era afagado pelas luzes náufragas.

Levei meu cérebro pra ver o mar
e ser ungido pelo puro sal.
Fiquei quase tonto de mar e ilha
e, emudecido ante o horizonte vago,
orei por um abrigo mais estrito.

Bruxuleante farol mergulhava,
algas deixavam bilhetes pra mim.
Lume movente no navio lá longe,
vidas no convés, Ulisses atado.
(Cativos do horizonte, marinheiros
em meio a ninho de circes turistas,
deslembravam de noivas e baleias.)

O cérebro meditava senil,
a vida gaivota se perdia...
Desatinado de pensar jornadas,
era minha mente sede em meio ao sal.
Enclausurado em silêncio escuro:
orei ao céu e escrevi na areia. 

Ipê amarelo


Carrossel de ouro vindo da terra e
do tempo. Artesão de neve amarela
Tecendo lenta guirlanda no chão
Para acamar seu rosto e o meu à noite.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Na minha morte

Quando chegar minha hora,
tragam-me as flores mais simples
para morrerem comigo.

Das mais belas, escolham:
cravos e jasmins e rosas
e ramos de ipê nas cores
branca, roxa e amarela;
não machuquem sua pétalas
não as murchem com o óleo
das orações e das lágrimas,
pois vou levá-las a Deus
que as esqueceu aqui
e talvez não saiba delas.

Não vertam sal sobre mim,
sobre meus olhos fechados,
nem dores tardias, nulas
para ouvidos descampados.
Se escutarem no meu sino
o sino de suas mortes,
inútil, não levo dor
nem recado de clemência.

Levarei tão-só um hálito,
suspiro póstumo, mudo,
para devolver a Ele.
Com pouco, com brisa morta,
de igreja deserta, Deus,
sopre vida em outro barro!

Por fim consagro, imolado,
o silêncio derradeiro
(moeda na boca sábia),
e meu coração de pedra
ao barco leve das nuvens.



Inelidível tristeza

Inelidível tristeza,
que sempre volta
ao soar de velhos sons:
o pio dos pardais,
o canto da lavadeira,
os metais do talheres,
um teco-teco voando -
retalhos na memória
e nas nuvens.

(Estaria eu presente
num mundo ausente;
ou então ausente
num mundo presente?)

Amicíssima tristeza,
sempre pronta e fiel.
Estranha voz residente,
que vem quando quer,
que fala em silêncio,
que senda em mim perdida
conduz até à tua fonte?

Na U.T.I.

Estou na U.T.I.
Estamos todos na U.T.I.

Falta uma página de sol,
uma gota de sangue.
Falta uma ave para o sul
ou para o norte; faltam erros
médicos, acertos divinos.

Falta ser paciente,
diz o médico.
Joguei no descartável:
deus, diabo, família, meu cão, buda.
Fiquei no corredor da morte nu
e de fraldas.

Mais tarde, recuperado, peguei de volta
os descartáveis: Deus,
Diabo, minha Família, meu Cão, Buda.

A todos que me salvaram,
pela lei da selva serei escravo,
para sempre.



xxxx



Empurrado na cadeira para o banho,
atravessou meu quarto:
- Bom-dia.
- Bom-dia.
Pergunto:
- Como está?
Responde:
- Ótimo. Graças ao CLEMENTE!



xxx

Euclides, o enfermeiro

Depois dos cuidados comigo,
lanço a pergunta:
Você tem filhos?
A resposta:
QuatroS.


xxxx



Querem voltar ao Nordeste.
Ambos, o enfermeiro e a enfermeira.
"Com este curso de enfermagem que fizemos
no Rio de Janeiro, vamos enricar. Está assim, assim,
de família rica precisando de enfermeiro.
Vamos enricar.



xxx



Dão-me um banho o casal
no próprio leito. O último orgulho,
as últimas vergonhas
vão-se ao ralo. O mais necessário banho
de minha vida. O mais difícil.
Estarei puro para o resto
da jornada; melhor, certamente haverá
um último...



xxx



Sentenciado a 72 horas de rede Globo,
hoje sei o que é um corredor da morte.


xxx



       À noite, o enfermeiro Dr. Hide. Notou a falta da papeleta com meu nome na parede. Voltou com a papeleta. Notou que eu bebia um remédio. Disse que os remédios só poderiam ser dados se prescritos pelo Hospital; no caso, seriam dados por ele, de plantão. Hesitei um pouco dizendo que o médico autorizara. Respondeu que não pode. Ponderei que então não tomaria, já que era assim. Ficou pensativo, disse-me que se o médico autorizara...Mas insisti que então não o tomaria. Ficou em silêncio, pensou e saindo me disse:
- Acho que é melhor você tomar, se o médico autorizou... Você é quem sabe. À noite, volto, para conferir.
-  A que horas você volta?
- Às quatro, de madrugada, tiro a pressão, vejo se você está bem, confirmo se tomou os medicamentos.
       Fiquei de plantão, sem dormir, esperando-o...Não dormi um segundo. Às quatro em ponto o Dr Hide volta. Observei-lhe a pontualidade. Disse-me: 
-  Aqui a gente tem que ser pontual.
       Contou-me debruçado sobre meu corpo, quatro e quinze da madrugada,  o caso do biomédico que recebeu dois tiros e estava tetraplégico e que fora ele que o atendera, estava aqui de plantão.
- Merecem a pena de morte, não? - finalizou.  Logo depois, saiu. Perguntei:
- Hoje você ainda volta?
- Não, vem outro no turno das sete.
- Obrigado. - disse-lhe.
- De nada.
- Boa recuperação.
- Obrigado.
        Saiu. Que hospital quieto...Adormeci!



                                                             

Haikai Ki não sei

Não sei rezar ave-marias,
só sei jogar água nas rosas.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Pobre vida


Vi a Vida sair por chaminés,
amor se dissipar, chegar ao fim,
vi meu amor filtrar o seu café,
vida sem vida, rosa de nanquim.

Como o amor é estranho e estranha, a fé,
sobra sempre um carvão que adormecia;
audaz, ele ressurge em jovens pés
e entoa  as cancões de novos dias.

Ao mundo não importa o sonho nulo,
as folhas secas, ocres de um antúrio,
pois reticente larva incontida,

rompe a malha cerrada do casulo,
dilacerada, em pranto, pura fúria,
alheia vem à luz, na nova vida.